
A sobrecarga mental feminina envolve responsabilidades que vão além da execução de tarefas domésticas e profissionais. Organizar compromissos, acompanhar as necessidades dos filhos, cuidar de familiares e administrar conflitos também fazem parte dessa rotina. Além disso, muitas mulheres enfrentam dificuldades para descansar ou pedir ajuda.
Segundo a psicanalista e pedagoga Regina Braghittoni, do Instituto Brasileiro de Psicanálise MATEMA, a cobrança para dar conta de tudo pode comprometer a saúde emocional. A especialista explica que algumas mulheres assumem responsabilidades por outras pessoas e deixam as necessidades pessoais em segundo plano.
“Muitas mulheres são reconhecidas por sua capacidade de resolver problemas, acolher e cuidar. O perigo começa quando essa força deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma obrigação. Ela sente que não pode falhar, descansar ou demonstrar fragilidade porque acredita que todos dependem dela”, explica Regina.
IBGE mostra diferença na divisão das tarefas domésticas
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentados no release, mostram uma diferença no tempo dedicado aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas.
As mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a essas atividades. Entre os homens, o tempo médio foi de 11,7 horas por semana.
Portanto, os números mostram que as mulheres assumem uma carga de trabalho doméstico e de cuidados superior à dos homens.
Além das atividades que exigem esforço físico, a sobrecarga envolve o planejamento da rotina familiar. Isso inclui lembrar compromissos, antecipar necessidades, acompanhar tarefas e administrar questões emocionais.
“Não é apenas executar uma tarefa. É precisar lembrar que ela existe, planejar como será realizada e garantir que tudo aconteça. Essa responsabilidade permanente mantém a mente em estado de alerta, mesmo nos momentos em que a mulher deveria estar descansando”, observa a psicanalista.
Quais são os sinais de sobrecarga mental feminina?
A sobrecarga mental pode provocar alterações no comportamento e no bem-estar emocional. De acordo com Regina, alguns sinais merecem atenção quando persistem e começam a afetar a rotina.
Entre os sintomas mencionados pela especialista estão a dificuldade para relaxar, a irritação frequente, a ansiedade e as alterações no sono.
Além disso, algumas mulheres relatam sentimento de culpa ao descansar, perda de prazer nas atividades e a sensação de que precisam atender às expectativas de outras pessoas.
Entretanto, esses sinais não representam, isoladamente, um diagnóstico. Por isso, é importante observar a frequência e os impactos sobre o trabalho, os relacionamentos e a qualidade de vida.
Por que algumas mulheres têm dificuldade para pedir ajuda?
A dificuldade para compartilhar responsabilidades também contribui para a sobrecarga mental feminina.
Segundo a psicanalista, algumas mulheres associam o pedido de ajuda à incapacidade de resolver problemas. Outras evitam delegar tarefas porque temem decepcionar familiares ou receber críticas.
Além disso, estabelecer limites pode provocar sentimentos de culpa. Como resultado, essas mulheres continuam assumindo compromissos mesmo quando percebem sinais de cansaço.
“Quando uma mulher passa muito tempo ocupando o lugar daquela que resolve tudo, ela pode deixar de reconhecer as próprias necessidades. Em muitos casos, consegue perceber rapidamente o sofrimento dos outros, mas demora para admitir o próprio cansaço”, afirma Regina.
Como reduzir a sobrecarga mental e dividir responsabilidades?
Para Regina Braghittoni, reconhecer o acúmulo de responsabilidades representa o primeiro passo para enfrentar a sobrecarga.
Em seguida, a especialista recomenda identificar quais tarefas podem ser compartilhadas. Conversar com familiares, rever prioridades e tornar visíveis as atividades domésticas e emocionais também fazem parte desse processo.
Além disso, estabelecer limites ajuda a evitar que uma única pessoa assuma todas as responsabilidades. Nesse contexto, aprender a dizer “não” pode contribuir para preservar a saúde emocional.
A psicanalista também destaca a importância do descanso e do cuidado com as necessidades pessoais.
“Ser forte não deveria significar suportar tudo em silêncio. Uma mulher não precisa chegar ao esgotamento para merecer ajuda. Descansar, dividir responsabilidades e cuidar de si não são atitudes egoístas; são necessidades humanas”, reforça a psicanalista.
Saúde mental feminina e o Dia Mundial da Saúde Mental
O debate sobre a sobrecarga mental feminina também integra as reflexões relacionadas ao Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro.
Em 2026, conforme informa o release, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama a atenção para a importância de ouvir as experiências de pessoas que enfrentam sofrimento emocional.
Nesse contexto, Regina Braghittoni destaca que a cobrança para demonstrar força pode dificultar o reconhecimento do próprio esgotamento.
A especialista atua como psicanalista, pedagoga e diretora do Instituto Brasileiro de Psicanálise MATEMA, em São Paulo. Seu trabalho aborda questões relacionadas ao desenvolvimento humano, aos conflitos emocionais e às relações familiares.































